CÁ TE ESPERO...

Recordando... Lília da Fonseca

CÂNTICO AO AMANHECER


 


Eu já não sou aquele frágil ser


que morria de angústia e desespero


por ir vogando, vogando sem rumo,


vogando, vogando na corrente da vida


para a morte…


 


Chocada,


magoada,


sensitiva…


 


Que formosura na sombra do mundo amanheceu,


que perfume de primavera estua nos caminhos,


que tudo se transforma


e acorda em sobressalto!


Eu dei as minhas mãos às mãos que vi estendidas,


juntei a minha voz ao cântico do amanhecer,


que reboa comovidamente


pleno de esperança e juventude,


e confundi meu coração


com os de todos os irmãos da minha humanidade.


 


E o frágil ser,


Chocado, magoado, sensitivo,


Morreu…


 


E só então pude exclamar:


Vida, vida, como eu te atraiçoava,


esperando tudo de ti


sem nada de mim te dar!


 


Na sombra do mundo estua a primavera


como sinal de um cântico que amanheceu!


 


In “Poemas da Hora Presente”


 


Lília da Fonseca


(1916-1991)

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