CÁ TE ESPERO...

Recordando... Lucinda Araújo

CARRIÇA


 


I


cantam as aves


nos ramos


da madrugada


mas é um canto antigo


que ficou perdido


como a esperança de um morto


não as ouvimos nós


não as merecemos já


cantam


solitárias e quase tristes


as aves


nos ramos da madrugada.


 


II


somos de longe


e a estrada


perde-se em becos


neles nos pedem contas


do que foi nosso mas já não temos


e nos cravam agudas facas


que por vingança


mais espetamos


nos nossos corpos


assim esfaqueados nos amamos


sabendo embora


que a morte é para breve


 


III


a carriça julgou


que era dia e cantou


(era tal o luar!)


mas a coruja


embrulhada em seu manto


piou lá do seu canto


e a noite ficou.


 


In “O Sabor das Amoras”


Edição do autor


 


Lucinda Araújo


(N.1925)


Portugal


 

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