CÁ TE ESPERO...

Recordando... Luís Adriano Carlos

ELEGIA


 


Dos teus olhos líquidos


irrompem musgos transparentes


onde existe um verso amarrotado


ao meio-dia. Um cinzeiro plástico,


resíduos da noite no óleo dos dedos.


Fica. Senta-te aqui na estrofe


desta ilha impar


num triângulo solitário.


Conversemos do curso que vais tirar,


da sede que mato em teus olhos,


de um animal atropelado,


do empréstimo de um livro, do sono


das aves para esconderem a morte.


Conversemos de tudo em vez de olharmos


as fontes secas e as folhas, o enxame


de lágrimas no meio da rua.


Não é meio-dia. Mentira


enquanto acreditávamos. Agora


só acredito em teu sonho. Gostava


de acariciar teus olhos líquidos


e alisar o verso amarrotado.


Mas perdes-te no voo sonoro e pequenino


do avião no horizonte. Eu queria


falar contigo. Olha


a minha voz sequiosa de ser ouvida


nas arestas do silêncio.


Eu queria era falar contigo.


Vivo num tapete de pregos em brasa


dentro do frio, numa lágrima cristalizada.


Vivo de não viver jamais.


Eu queria falar contigo.


 


 


A Mecânica do Sexxo XX


 


 


In “Poesia Digital – 7 Poetas dos Anos 80”


Campo das Letras


 


Luís Adriano Carlos
N. 1959


 

0