CÁ TE ESPERO...

Recordando... Luís Miguel Nava

RECÔNDITAS PALAVRAS


 


Inquietam-me as dedadas


de deus rente à raiz da carne, ao indeciso


equilíbrio da alma


na balança, à cicatriz


azul do céu sobre o destino.


 


O mar pneumático, ao sabor


do qual contra os sentidos se nos fazem


e desfazem as ávidas lembranças,


assalta-me os sentidos, tenebrosas


 


crateras escavadas


no espírito e através


das quais, incandescentes, as imagens


do mundo sobre ele próprio se derramam


 


como uma lava espessa, esses sentidos


que, como aéreos


estigmas, nos imprimem


na carne a cicatriz do céu, a indecisa


maneira de as imagens


 


do mundo se guindarem


mais alto do que a alma ou o alento


de quem dentro de nós


aviva a sua chama. O que nos sai


do coração vem a ferver.


 


A carne, ao rés


da qual o céu se encurva, báscula


que deus deixou nos arredores


dum qualquer lugarejo


 


a encher-se de ferrugem, cicatriz


pesada, combustível, com raiz


nas mais profundas trevas, a carne âncora


submersa no destino, ergue-se a pique


 


de novo onde as lembranças


se fazem e desfazem


com todo o azul do céu


lá dentro a procurar rompê-la.


 


Sentados no convés, como se fosse


já noite e nos soubesse


o pão ao ranço da memória, contemplamos


os rudes marinheiros.


 


Depois que pela encosta procurámos


em vão uma escada de que o último


degrau fosse já dentro da memória,


suspenso na memória,


 


desfaz-se-nos dos ossos


a carne, com o seu quê de lírico e festivo,


em áreas portuárias onde o mar


nos sai do coração para galgar o molhe,


 


e, agora que começam


os anos a pesar


mais para trás que para a frente, acodem-nos


recônditas palavras aos ouvidos:


 


«Fecharam-se-te os olhos e eu fiquei de fora»,


 


«Nas tuas mãos começa o precipício».


 


 


 


Vulcão


 


In “Poesia Completa 1979-1994”


Publicações Dom Quixote


 


Luís Miguel Nava


1957 – 1995


 

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