CÁ TE ESPERO...

Recordando... Luiza Neto Jorge

O SÍTIO EM VISTA


 


Trazem as árvores insignificantes


o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,


alçam outros armazéns sonoros


casas de relâmpagos e de cataclismos.


 


Chega-se. Parte-se. Segreda-se


de seres indeterminados que movem


resistência. Pelejam mais.


 


E quando a sua pele se usa vence


a moda, mudança de uma árvore para a mundanal


outra árvore carregada.


 


Podem aliás irromper quentes florestas.


Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo


do fruto desenvolvido no seu trono


iluminado por quatro archotes de seiva.


 


Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua


difícil de encontrar.


 


São os campos, gente humílima, absorta em grãos


de areia, praia inequívoca onde,


na estação tardia, os do mar se deitam.


Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.


Algumas cartas, de marear,


não chegam.


 


Criaturas que se reproduziam em interstícios


que se deitavam em divãs


cada vez mais estreitos


 


a luminosa vocação, a luminosidade


de uma terra sábia e rotunda


suplantava aqueles gritos portadores


de uma defunta órfica voz


 


Eram as criaturas presas,


do seu século


retraídas nos olhos mal afeiçoados


 


Filhos mais velhos a atentarem


em como o corpo incha e se perfaz a polpa


como o limite se delimita corpo a corpo


e engorda


 


Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta


e os mais novos sorriam como lábios.


 


(Os Sítios Sitiados)


 


In “Poesia”


Organização e prefácio de Fernando Cabral Martins


Assírio & Alvim 2ª edição


 


Luiza Neto Jorge


(1939-1989)

0