CÁ TE ESPERO...

Recordando... Lutegarda Guimarães de Caires

ESTRELA D´ALVA


 


                       Á memoria de minha filha


 


Ha tantos anos já que tu voaste,


ha tantos anos já que me deixaste,


e eu penso em ti ainda e tantas vezes!...


 


Dir-se-hia até que desde que nasci,


sempre te vi, sempre te conheci,


e que partiste apenas ha uns mezes!...


 


Mas não, não foi assim. A tua vinda


tão passageira foi, que eu julgo ainda


que o tempo nem chegou p´ra comprehender.


 


se era de mim que tu vivias, q´rida,


se era de ti que eu recebia a vida,


porque eu morria, vendo-te morrer!...  


 


Porque esses olhos que eu amava tanto,


foi afogando os meus num mar de pranto


que t´os beijei, ainda mal cerrados…


 


E eu vivo ainda sem poder ’squecê-los


e penso aflicta que não posso vê-los,


que já não tornam mais a ser beijados.


 


                         ***


Cerraram-se p’ra sempre os olhos seus..


e eu, blafesmando, perguntei a Deus


p’ra que servia a vida sem a luz


 


d´aqueles olhos que eu beijara aos ais!...


E só pude viver sem os ver mais,


depois de ajoelhar aos pés da Cruz!..


 


(mantém a grafia da época)


 


In “Pombas Feridas”


Papelaria Tipografia Largo do Pelourinho


 


Lutegarda Guimarães de Caires


(1873-1935)


Portugal

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