CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuel Alegre

NÃO SEI DE AMOR SENÃO


 


Não sei de amor senão o amor perdido


o amor que só se tem de nunca o ter


procuro em cada corpo o nunca tido


e é esse que não pára de doer.


Não sei de amor senão o amor ferido


de tanto te encontrar e te perder.


 


Não sei de amor senão o não ter tido


teu corpo que não cesso de perder


nem de outro modo sei se tem sentido


este amor que só vive de não ter


o teu corpo que é meu porque perdido


não sei de amor senão esse doer.


 


Não sei de amor senão esse perder


teu corpo tão sem ti e nunca tido


para sempre só meu de nunca o ter


teu corpo que me dói no corpo ferido


onde nunca deixou nunca de doer


não sei de amor senão o amor perdido.


 


Não sei de amor senão o sem sentido


deste amor que não morre por morrer


o teu corpo tão nu nunca despido


o teu corpo tão vivo de o perder


neste amor que só é de não ter sido


não sei de amor senão esse não ter.


 


Não sei de amor senão o não haver


amor que dure mais do que o nunca tido.


Há um corpo que não para de doer


só esse é que não morre de tão perdido


só esse é sempre meu de nunca o ser


não sei de amor senão o amor ferido.


 


Não sei de amor senão o tempo ido


em que amor era amor de puro arder


tudo passa mas não o não ter tido


o teu corpo de ser e de não ser


só esse meu por nunca ter ardido


não sei de amor senão esse perder.


 


Cintilante na noite um corpo ferido


só nele de o não ter tido eu hei-de arder


não sei de amor senão amor perdido.


 


In “Livro Do Português Errante”


Publicações Dom Quixote


 


Manuel Alegre


(N.1936)

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