CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuel Alegre  

NATAL


 


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.


Era gente a correr pela música acima.


Uma onda uma festa. Palavras a saltar.


 


Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.


Guitarras guitarras. Ou talvez mar.


E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.


 


Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.


No teu ritmo nos teus ritos.


No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).


Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.


E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.


No teu sol acontecia.


 


Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).


Todo o tempo num só tempo: andamento


de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.


Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva


acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva


na cidade agitada pelo vento.


 


Natal Natal (diziam). E acontecia.


Como se fosse na palavra a rosa brava


acontecia. E era Dezembro que floria.


Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.


E era na lava a rosa e a palavra.


Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.


 


In “Antologia Poética”


 


Manuel Alegre  


(N.1936)

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