CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuel António Pina

TODAS AS PALAVRAS


 


As que procurei em vão,


principalmente as que estiveram muito perto,


como uma respiração,


e não reconheci,


ou desistiram e


partiram para sempre,


deixando no poema uma espécie de mágoa


como uma marca de água impresente;


as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te


nem foram capazes de dizer-me;


as que calei por serem muito cedo,


e as que calei por serem muito tarde,


e agora, sem tempo, me ardem;


as que troquei por outras (como poderei


esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);


as que perdi, verbos e


substantivos de que


por um momento foi feito o mundo


e se foram levando o mundo.


E também aquelas que ficaram,


por cansaço, por inércia, por acaso,


e com quem agora, como velhos amantes sem


desejo, desfio memórias


as minhas últimas palavras.


 


In “Poesia Reunida”


Assírio & Alvim


 


Manuel António Pina


(1943–2012)

0