CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuel António Pina

JUNTO À ÁGUA


 


Os homens temem as longas viagens


os ladrões da estrada, as hospedarias,


e temem morrer em frios leitos


e ter sepultura em terra estranha.


 


Por isso os seus passos os levam


de regresso a casa, às vontades da infância,


ao velho portão em ruínas, à poeira


das primeiras, das únicas lágrimas.


 


Quantas vezes em


desolados quartos de hotel


esperei em vão que me batesses à porta,


voz da infância, que o teu silêncio me chamasse!


 


E perdi-vos para sempre entre prédios altos,


sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,


e no meio das multidões dos aeroportos.


Agora só quero dormir um sono sem olhos


 


e sem escuridão, sob um telhado por fim.


À minha volta estilhaça-se


o meu rosto em infinitos espelhos


e desmoronam-se os meus retratos na moldura.


 


Só quero um sítio onde pousar a cabeça.


Anoitece em todas as cidades do mundo,


acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos


onde o meu coração, falando, vagueia.


 


(Um Sítio Onde Pousar a Cabeça)


 


In “Todas as palavras”


Poesia reunida


Assírio & Alvim


 


Manuel António Pina


(1943-2012)

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