CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuel António Pina

ESPLANADA


 


Naquele tempo falavas muito de perfeição,


da prosa dos versos irregulares


onde cantam os sentimentos irregulares.


Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,


 


agora lês saramagos & coisas assim


e eu já não fico a ouvir-te como antigamente


olhando as tuas pernas que subiam lentamente


até um sítio escuro dentro de mim.


 


O café agora é um banco, tu professora do liceu;


Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.


Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,


e não caminhos por andar como dantes.


 


In “Um Sítio onde Pousar a Cabeça”


 


Manuel António Pina


(1943-2012)

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