CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuel da Fonseca

DONA ABASTANÇA


 


«A caridade é amor»


Proclama dona Abastança


Esposa do comendador


Senhor da alta finança.


 


Família necessitada


A boa senhora acode


Pouco a uns a outros nada


«Dar a todos não se pode.»


 


Já se deixa ver


Que não pode ser


Quem


O que tem


Dá a pedir vem.


 


O bem da bolsa lhes sai


E sai caro fazer o bem


Ela dá ele subtrai


Fazem como lhes convém


Ela aos pobres dá uns cobres


Ele incansável lá vai


Com o que tira a quem não tem


Fazendo mais e mais pobres.


 


Já se deixa ver


Que não pode ser


Dar


Sem ter


E ter sem tirar.


 


Todo o que milhões furtou


Sempre ao bem-fazer foi dado


Pouco custa a quem roubou


Dar pouco a quem foi roubado.


 


Oh engano sempre novo


De tão estranha caridade


Feita com dinheiro do povo


Ao povo desta cidade.


 


Poemas para Adriano


 


In "Poemas Completos"


Editora Caminho


 


Manuel da Fonseca


(1911-1993)

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