CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuel da Fonseca

SEGUNDO DOS POEMAS DA INFÂNCIA


 


Quando foi que demorei os olhos


sobre os seios nascendo debaixo das blusas,


das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...


... Como nasci poeta,


devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso


e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.


Quando, não sei ao certo.


 


Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,


foi um grande mistério.


Tão grande


que eu corria até ao cansaço.


E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,


como sejam os pássaros quando passam voando.


E desafiava,


sem razão aparente,


rapazes muito mais velhos e fortes!


E uma vez,


de cima de um telhado,


joguei uma pedrada tão certeira,


que levou o chapéu do senhor administrador!


Em toda a vila,


se falou, logo, num caso de política;


o senhor administrador


mandou vir, da cidade, uma pistola,


que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;


e os do partido contrário,


deixaram crescer o musgo nos telhados


com medo daquela raiva de tiros para o céu...


 


Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!


 


In “Obra Poética”


Editorial Caminho


 


Manuel da Fonseca


(1911-1993)

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