CÁ TE ESPERO...

Recordando... Manuela Amaral

ODE À TRISTEZA


 


Eu canto esta alegria


(entristecida)


de tanto te lembrar


e ser saudade


E a minha voz é forte


timbrada de dias


e distâncias


com as palavras todas mastigadas


(E se tristeza tenho


que me reste


não me julgues parada


ou indecisa


Cristalizei meus olhos de chorarem


e o meu olhar é firme,


certeiro ao teu encontro)


Eu canto esta alegria


de segredar-me ao vento


e seguir viagem


em direcção de ti


leve


impensada


informe


e num fluir de aragem


ser transformada em ar


Pedaço que respiras.


E nos meus dedos mansos


-veludos que pisaram


teu corpo em movimento-


vou amarrar o tempo


as letras do teu nome


E depois morrer.


Eu canto esta alegria


de saber-te


 


In “Esta Coisa Quase Vida” - 1993


Editora Fora do Texto


 


Manuela Amaral


(1934-1995)

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