CÁ TE ESPERO...

Recordando... Margarida Vale de Gato

RESSABIADAS


 


Talvez lá no fundo acredite


que os seres humanos são todos sensivelmente


os mesmos em toda a parte, mas então


necessariamente as mulheres são mais.


Costumes que frequentamos:


o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas


do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão,


o alguidar, guardamos os restos, torcemos


os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,


os nossos ovos.


 


Certamente que eles, em grande maioria,


escanhoam os queixos e gostam


de arejar, mas não médicos, polícias,


engraxadores, economistas


e os vários naipes da banda filarmónica


nós somos todas domésticas, mesmo


 


assim não nos entendemos, e


nem serve escrever isto


que o maniqueísmo em traços largos


resvala na aldrabice, e a poesia


vem dos anjos já se sabe


carecidos de sexo.


 


E aliás que me rala a mim,


levo a minha vida e tenho o amor


de que não desconfio


e se consolo o cio e a fome


decerto falo de cor,


nem é por isso que me doem os calos


mas por causa dos bicos


dos vossos saltos


no desnível dos soalhos, refinadas


galdérias que se tomam a sério,


pestanas certeiras e beiços


que brilham, línguas que estalam


e mamas que chispam


 


corada invoco a imagem mal tirada


da fêmea recortada ao macho que a conforma;


sei que desminto qualquer laço comunal


e seja como for ninguém pediu


o meu palpite, pelo que não me habilito


e me desquito, acinte,


mudo, era eu


quem estava mal.


 


In “Mulher ao Mar”


Editora Mariposa Azual


 


Margarida Vale de Gato


(N.1973)

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