CÁ TE ESPERO...

Recordando... Maria Amália Vaz de Carvalho

A SEU PAE


 


                José Vaz de Carvalho


 


Ouve-me Pae, da minha lyra tímida


ouso as premicias a teus pés depôr,


e leia n´ellas o teu vasto espirito


humilde preito de infinito amor!


 


C´rôa singella de nevados lyrios,


por mim tecida com suave enleio!


vagas cadencias amorosas, languidas,


que a primavera me verteu no seio!...


 


Scentelhas soltas d´uma chamma etherea…


mysticos sonhos que eu soletro só…


que são?.. que valem, para o mundo frívolo


todo envolvido em seu doirado pó?


 


Só tu meu Pae acolherás sollicito


a minha incerta e juvenil canção!


tu, que de amores me doiraste a infância!..


me és premio à lira, e ao mal, se o fiz, perdão!


 


Oh! se n´um sonho fugitivo, rápido,


vira da gloria a divinal miragem…


se em magas horas de fugaz delírio


me endoidecera essa risonha imagem…


 


Se o echo ao longe dos aplausos fervidos


désse à minh´alma embriaguez febril,


e se os laureis d´entre inspirados extasis


me florejassem num perpetuo abril!


 


Sabes o premio que antevira, esplendido!


e a recompensa que eu sonhára então?


fôra em teus lábios um sorrir de jubilo


fôra uma bênção da tua nobre mão!


 


(mantém a grafia original)


 


In “Uma Primavera de Mulher”


 


Maria Amália Vaz de Carvalho


(1847-1921)

0