CÁ TE ESPERO...

Recordando... Maria do Céu Brito

O CORPO É TODAS AS COISAS


 


O corpo é todas as coisas
menos a luz que resplandece do teu olhar
menos o azul

que não está nas coisas nem no céu primaveril que se abre em rosa
nem nas águas cintilantes do oceano
nem nos teus olhos iluminados
pela pueril fragrância das glicínias

todas as coisas
são o universo inteiro que vai além
das coisas que vemos
suspensas nos pilares do tempo
ou as que não vemos por estarem ocultas na ficção dos espelhos
sempre o corpo
será a perpetuação de todas as coisas
na brevidade dos instantes

menos o nada que nada é fora de si próprio

menos o absoluto
espaço desabitado para lá do portal dos deuses

menos o amor
sempre em viagem na errância do desejo

sempre o corpo será
todas as coisas ígneas a incendiar
a noite e o firmamento incerto

sempre as mãos semearão a pedra entre vagas luas
e os lábios sulcarão os regos do corpo entreaberto
com arados de sangue de saliva e de sémen
sempre o corpo aspirará a ser liberto das cisternas
do medo onde mergulha as raízes

todas as coisas nunca serão no corpo
todas as coisas na sua infinita falta de si mesmo.


 


In “Cem  Poemas Portugueses no Feminino”
Selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria


Editora Terramar


 


Maria do Céu Brito


N. 1966

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