CÁ TE ESPERO...

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

SE TERMINAR ESTE POEMA, PARTIRÁS


 


Se terminar este poema, partirás. Depois da


mordedura vã do meu silêncio e das pedras


que te atirei ao coração, a poesia é a última


coincidência que nos une. Enquanto escrevo


 


este poema, a mesma neblina que impede a


memória límpida dos sonhos e confunde os


navios ao retalharem um mar desconhecido


 


está dentro dos meus olhos – porque é difícil


olhar para ti neste preciso instante sabendo que


não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que


 


continuo a amar-te em surdina com essa inércia


sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não


beijos, porque o poema é o único refúgio onde


podemos repetir o lume dos antigos encontros.


 


Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,


que apenas escreva até ao fim mais esta página


(que, como as outras, será somente tua – esse


 


beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que


aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade


nos faz adultos para sempre, sei que te perderei


 


em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;


e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á


a última coincidência que nos une.


 


 


In “O Canto do Vento nos Ciprestes”


Editora Gótica,


 


Maria do Rosário Pedreira


N. 1959


 

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