CÁ TE ESPERO...

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

MÃE, EU QUERO IR-ME EMBORA


 


Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada


daquilo que disseste quando os meus seios começaram


a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,


murcharam tão depressa as rosas que me deram –


se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu


deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.


 


Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão


cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,


só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais


que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos


os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,


deitei-me com mais homens do que aqueles que amei


e o que amei de verdade nunca acordou comigo.


 


Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre


caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.


Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez


não chames pelo meu nome, não me peças que fique –


as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m


embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue


de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como


uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.


 


Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem


nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta


hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.


Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas


essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre


o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias


foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão


tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam


virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


 


In 'O Canto do Vento nos Ciprestes'


Editora Gótica


 


Maria do Rosário Pedreira


N.1959

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