CÁ TE ESPERO...

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

SE PARTIRES, NÃO ME ABRACES...


 


Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta


uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre


e sonha com viagens na pele salgada das ondas.


 


Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão


das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;


mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,


porque o ar que respiras junto de mim é como um vento


a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –


 


o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno


nos dias sem ninguém –longe de ti, o corpo não faz


senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta


as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto


espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.


 


Se me abraçares, não partas.


 


In “O Canto do Vento nos Ciprestes”,


Gótica - 2001


 


Maria do Rosário Pedreira


(N.1959)

0