CÁ TE ESPERO...

Recordando... Mário de Sá-Carneiro

COMO EU NÃO POSSUO


 


Olho em volta de mim. Todos possuem —


Um afecto, um sorriso ou um abraço.


Só para mim as ânsias se diluem


E não possuo mesmo quando enlaço.


 


Roça por mim, em longe, a teoria


Dos espasmos golfados ruivamente;


São êxtases da cor que eu fremiria,


Mas a minh’alma pára e não os sente!


 


Quero sentir. Não sei… perco-me todo…


Não posso afeiçoar-me nem ser eu:


Falta-me egoísmo para ascender ao céu,


Falta-me unção pra me afundar no lodo.


 


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser


Forçoso me era antes possuir


Quem eu estimasse — ou homem ou mulher,


E eu não logro nunca possuir!…


 


Castrado de alma e sem saber fixar-me,


Tarde a tarde na minha dor me afundo…


Serei um emigrado doutro mundo


Que nem na minha dor posso encontrar-me?…


 


Como eu desejo a que ali vai na rua,


Tão ágil, tão agreste, tão de amor…


Como eu quisera emaranhá-la nua,


Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!…


 


Desejo errado… Se a tivera um dia,


Toda sem véus, a carne estilizada


Sob o meu corpo arfando transbordada,


Nem mesmo assim — ó ânsia! — eu a teria…


 


Eu vibraria só agonizante


Sobre o seu corpo de êxtases doirados,


Se fosse aqueles seios transtornados,


Se fosse aquele sexo aglutinante…


 


De embate ao meu amor todo me ruo,


E vejo-me em destroço até vencendo:


É que eu teria só, sentindo e sendo


Aquilo que estrebucho e não possuo.


 


in “Dispersão”


Editorial Presença


 


Mário de Sá-Carneiro


(1890-1916)

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