CÁ TE ESPERO...

Recordando... Miguel Torga

 


À FLOR DAS VAGAS


 


Vai a barca do mundo à flor das vagas


No seu mar de tormentas;


Gemem os remadores,


Mordidos pelo beijo de chicote;


E tu, poeta, como um sacerdote,


Da bonança,


A conjurar o mal,


A cantar,


Sem nenhum desespero,


Te desesperar!


Sabe cada ternura a pão azedo


Os acenos são olhos disfarçados;


E os teus versos,


Gratuitos, desfolhados,


Sobre as chagas da vida


Como pensos sagrados


De beleza calmante e condoída!


 


 


Que humanidade tens, irmão?


De onde te vem a força, a decisão


E esse gosto de nunca desertar?


És o Cristo, talvez...


Um Cristo sem altar


Que ficaste a lutar


Junto de nós,


Tão presente, real e natural,


Que podemos ouvir-lhe a própria voz.


 


 


Miguel Torga


1907 – 1995


 


 

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