NATAL
Todos os anos, nesta data exacta,
Momentos antes
De fechar o cartório
De poeta
– Um registo civil ultra-real –,
O mago desse arquivo de presságios
Regista de antemão o mesmo nome
No seu livro de assentos:
– Jesus… – repete com melancolia,
A consumar a morte prematura
Do nascituro,
E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.
Martinho da Anta, 24 de Dezembro de 1973.
In “Poesia Completa” 2 volumes
Publicações Dom Quixote
Miguel Torga **
(1907-1995)
** Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha