CÁ TE ESPERO...

Recordando... Miguel Torga

MÃE


 


Mãe:


Que desgraça na vida aconteceu,


Que ficaste insensível e gelada?


Que todo o teu perfil se endureceu


Numa linha severa e desenhada?


 


Como as estátuas, que são gente nossa


Cansada de palavras e ternura,


Assim tu me pareces no teu leito.


Presença cinzelada em pedra dura,


Que não tem coração dentro do peito.


 


Chamo aos gritos por ti — não me respondes.


Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.


Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes


Por detrás do terror deste vazio.


 


Mãe:


Abre os olhos ao menos, diz que sim!


Diz que me vês ainda, que me queres.


Que és a eterna mulher entre as mulheres.


Que nem a morte te afastou de mim!


 


In “Diário IV”


Editora Coimbra


 


Miguel Torga *


1907 – 1995


 


 


* Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha

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