CÁ TE ESPERO...

Recordando... Miguel Torga

BIOGRAFIA


 


Sonho, mas não parece.


Nem eu quero que pareça.


É por dentro que eu gosto que aconteça


A minha vida.


Íntima, funda, como um sentimento


De que se tem pudor.


Vulcão de exterior


Tão apagado,


Que um pastor


Possa sobre ele apascentar o gado.


 


Mas os versos, depois,


Frutos do sonho e dessa mesma vida,


É quase à queima-roupa que os atiro


Contra a serenidade de quem passa.


Então, já não sou eu que testemunho


A graça


Da poesia:


É ela, prisioneira,


Que, vendo a porta da prisão aberta,


Como chispa que salta da fogueira,


Numa agressiva fúria se liberta.


 


In “Antologia Poética”


Edições Dom Quixote


 


Miguel Torga **


(1907 – 1995)


 


** Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha

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