CÁ TE ESPERO...

Recordando... Natália Correia

COMO DIZER O SILÊNCIO?


 


Se em folhagem de poema


me catais anacolutos


é vossa a fraude. A gema


não desce a sons prostitutos.


 


O saltério, diletante,


fere a Musa com um jasmim?


Só daí para diante


da busca estará o fim.


 


Aberta a porta selada,


sou pensada já não penso.


Se a Musa fica calada


como dizer o silêncio?


 


Atirar pérola a porco?


Não me queimo na parábola.


Em mãos que brincam com o fogo


é que eu não ponho a espada.


 


Dos confins, o peristilo


calo com pontas de fogo,


e desse casto sigilo


versos são só desafogo.


 


E também para que me lembrem


deixo-os no mercado negro,


que neles glórias se vendem


e eu não sou só desapego.


 


Raiz de Deus entre os dentes,


aí, pára a transmissão.


Ultrassons dessas nascentes


só aves entenderão.


 


In “O Dilúvio e a Pomba”


Edições Dom Quixote - 1979


 


Natália Correia


(1923-1993)

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