CÁ TE ESPERO...

Recordando... Natália Correia

PROJECTO DE BODAS


 


Hoje apetece que uma rosa seja


O coração exterior do dia;


E a tua adolescência de cereja


No meu bico de Isolda Cotovia.


 


Hoje apetece a intuição dum cais


Para a lucidez de não chegar a tempo


E ficarmos violetas nupciais


Com a lua a celebrar o casamento.


 


Apetece uma casa cor-de-rosa


Com um galo vermelho no telhado


E os degraus duma seda vagarosa


Que nunca chegue à varanda do noivado.


 


Hoje apetece que o cigarro saiba


A ter fumado uma cidade toda.


Ser o anel onde o teu dedo caiba


E faltarmos os dois à nossa boda.


 


Hoje apetece um interior de esponja


E como estátua a que moldar o vento.


Deitar as sortes e, se sair monja,


Navegar ao acaso o meu convento.


 


Hoje apetece o mundo pelo modo


Como vai despenhar-se um trapezista.


Abrir mais uma flor no nosso lodo:


Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.


 


Hoje apetece que a cor dum automóvel


Seja o Egipto de novo em movimento;


E que no espaço duma gota imóvel


Caiba a possível capital do vento.


 


Hoje apetece ter nascido loiro


Como apetece ter havido Atenas;


E tu nas curvas rápidas de um toiro.


E eu quase intangível como as renas.


 


Hoje apetece que venhas no jornal


Como um anúncio. Sem fotografia.


E inventar-te uma lenda de cristal


Para reflectir a minha biografia.


 


In “Antologia Poética”


Publicações Dom Quixote


 


Natália Correia


(1923-1993)

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