CÁ TE ESPERO...

Recordando... Natércia Freire

AS CRIANÇAS


 


Então as crianças falaram da Morte.


Sentadas nos degraus de pedra,


Pousadas na manhã cinzenta,


Disseram: – Levava um vestido branco,


As mãos roxas e uma flor cansada.


 


No largo as mulheres cantavam.


Pensavam nos companheiros


E nas noites de amor.


As crianças permaneciam invioladas,


Possuídas de secretas imagens


E de tudo quanto foi antes do próprio nascimento.


 


Sentadas nos degraus de pedra,


As crianças desdobravam-se sucessivamente.


Unidades, dezenas, centenas, milhares, milhões, biliões.


O seu estandarte chama-se nevoeiro.


Mas os olhos repercutiam dobres de sinos


E uma enigmática energia solar.


 


Todavia, as noites das crianças eram templos de solidão


E nos leitos soluçavam o temor dos intrusos.


 


De manhã, invadiram todos os espaços e luzes.


E os adultos, ignorantes e cegos, sorriam.


– São as crianças!, diziam.


E seguiam a ruminar os seus sonhos,


Como se tivessem roçado a paz.


 


Mas as crianças germinavam, mudas e sábias,


As ordens recebidas num sol antigo.


Armavam-se de reservas e paixões,


Faziam planos que os adultos não deixariam depois cumprir.


 


(Depois, quando as crianças fossem adultos.)


Elas sabem que existe o Paraíso


Mas a distância de cada dia, entre os homens,


Escurece-lhes a memória finita.


Abrigam-se então na memória infinita


Que as liberta e possui


E nos leitos soluçam o temor dos intrusos.


 


In “Colóquio/Letras”


N.º 1 – Março.1971


Fundação Calouste Gulbenkian


Pág. 70/71


 


Natércia Freire


(1919-2004)          

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