DE BOLORENTOS LIVROS RODEADO
De bolorentos livros rodeado
Moro, Senhor, nesta fatal cadeira
De quinze invernos a voraz carreira
Me tem no mesmo posto sempre achado,
Longo tempo em pedir tenho gastado,
E gastarei talvez a vida inteira;
O ponto está em que quem pode queira,
Que tudo o mais é trabalhar errado.
Príncipe Augusto, seja vossa a glória:
Fazei que este infeliz ache ventura;
Ajuntai mais um facto à vossa história.
Mas, se inda aqui me segue a desventura,
Cedo ao meu fado, e vou co’a palmatória
Cavar num canto da aula a sepultura.
In “Obras Completas”
Nicolau Tolentino de Almeida
(1740-1811)