CÁ TE ESPERO...

Recordando... Nuno de Figueiredo

JÁ NINGUÉM SE MATA POR AMOR


 


Já ninguém se mata por amor,


ninguém segue o rasto de um perfume


durante a vida inteira. Já nem


se aproveitam as guerras para


aquelas paixões impossíveis, fulminantes


as guerras são no ar agora, não


como dantes, quando se ia marchando


de terra em terra. Os homens são


pássaros mortais com armas de


gigantes. Já ninguém se deixa


 


enlouquecer por uns olhos esculpidos


no retrato, ninguém acorda com


um nome gasto e sempre novo


deposto com doçura sobre os lábios.


 


São tempos outros de maior usura.


Flores só submetidas a horrorosos


suplícios, vendidas a peso de ouro.


Já ninguém colhe uma rosa


já não há mulher formosa que


componha entre o cabelo, entre


os seios, no decote, uma camélia.


 


Já não dizem um do outro: o meu


amor. Já só dizem: ele, ela...


 


In “Poemas de amor e valimento”


Editora Tartaruga


 


Nuno de Figueiredo


(N.1943)

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