JÁ NINGUÉM SE MATA POR AMOR
Já ninguém se mata por amor,
ninguém segue o rasto de um perfume
durante a vida inteira. Já nem
se aproveitam as guerras para
aquelas paixões impossíveis, fulminantes
as guerras são no ar agora, não
como dantes, quando se ia marchando
de terra em terra. Os homens são
pássaros mortais com armas de
gigantes. Já ninguém se deixa
enlouquecer por uns olhos esculpidos
no retrato, ninguém acorda com
um nome gasto e sempre novo
deposto com doçura sobre os lábios.
São tempos outros de maior usura.
Flores só submetidas a horrorosos
suplícios, vendidas a peso de ouro.
Já ninguém colhe uma rosa
já não há mulher formosa que
componha entre o cabelo, entre
os seios, no decote, uma camélia.
Já não dizem um do outro: o meu
amor. Já só dizem: ele, ela...
In “Poemas de amor e valimento”
Editora Tartaruga
Nuno de Figueiredo
(N.1943)