CÁ TE ESPERO...

Recordando... Nuno Júdice

GÉNESIS


 


No princípio era o verbo, e eu traduzia-o


em palavras com um sentido fundo como o poço


de onde as mulheres puxavam os baldes de água,


à tarde, para refrescar o chão de agosto. Nas


cordas de roupa do quintal, eu estendia as palavras


para as secar: e via o sol atravessá-las até ao osso,


dissecando o seu corpo mais vago — as vogais fechadas


do fim, ou a enunciação de um infinito


Até ao limite do verbo.


 


No principio também eram as coisas: umas


sobre as outras, no alinhamento curvo do destino,


corno se não estivessem para cair nessa trepidação


de rimas que um fim de verso pode trazer. Então,


levantava-as do chão onde se tinham partido em pedaços,


as coisas brancas da lua e as coisas vermelhas do sol,


e colava-as na parede, vendo o muro subir


até ao tecto celeste..


 


E no fim, volta a ser o verbo. Arranha-me a língua


com as suas unhas de consoantes; e pego-lhe ao colo,


para que não fira os pés nas pedras do campo, ouvindo


a sua voz de carne e oo escrever-me, no fundo


da cabeça, e a toda a largura da alma, a frase


redonda do amor. Trabalho a sua sintaxe, até


descobrir as articulações do segredo; e abraço


o corpo que nasce na conjugação


das suas pálpebras, abertas até ao fundo


dos olhos, onde te vejo.


 


In “O Estado dos Campos”


Publicações Dom Quixote


 


Nuno Júdice


(N. 1949)

0