CÁ TE ESPERO...

Recordando... Nuno Júdice

DEFINIÇÃO


 


Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá


que sentimento corrompe, ou apenas se o coração


se encontra no vazio da memória? O vento


não percorre a tarde com o seu canto alucinado,


que só os loucos pressentem, para que tu


o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores


te oferece uma sombra para que lhe


fujas com um riso ágil de quem crê


na superfície da vida. Esses são alguns limites


que a natureza põe a quem resiste à convicção


da noite. O caminho está aberto, porém,


para quem se decida a reconhecê-los; e os própnos


passos encontram a direcção fácil nos sulcos


que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,


entra nesse campo; não receies o horizonte


que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto


cujos braços te chamam. Apropria-te do calor


seco dos vestíbulos. Bebe o licor


das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios


imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando


o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,


ignorando as nuvens e os astros. O amor


é esse contacto sem espaço,


o quarto fechado das sensações,


a respiração que a terra ouve


pelos ouvidos da treva.


 


In "Um Canto na Espessura do Tempo"


Quetzal Editores


 


Nuno Júdice


(N.1949)

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