CÁ TE ESPERO...

Recordando... Nuno Judíce... Poeta Contemporâneo

ALEGORIA FLORAL


   


Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira


que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem


desça do céu para vestir de névoa os seus


seios de flor: seguirei o caminho da água nos


canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei


pela terra em busca da raiz.


   


Nesse dia em que os cabelos da mulher se


confundirem com os fios luminosos que o sol


faz passar pela folhagem; e em que um perfume


de pólen se derramar no ar liberto da névoa:


procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre


uma transparência de ribeiro.


   


Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,


despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu


da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,


desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e


empurrá-las-ei para o mar com o vento brando


da sua respiração.


  


Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira


com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como


um botão de rosa, esperando que a nuvem desça


do céu para a roubar ao sonho da flor.


    


 


In "O Estado dos Campos"


Publicações Dom Quixote


 


Nuno Júdice


N. 1949


 

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