MUITAS CIDADES VIU PELA ÚLTIMA VEZ
Muitas cidades viu pela última vez, mares
que sulcou, sentimentos que sentiu,
jardins onde esteve, bosques onde sonhou,
amores que recorda, ruas que pisou,
poemas que o possuíram, neves onde
se corroeu, corpos de que foi parte, céus
que desabaram, dores que sofreu, palavras
jamais lembradas, alegrias que perdeu
– fragmentos de vidas irrepetíveis, como
esses segundos que fogem quando fulgem
os olhos de Laura. Só o trabalho do corpo
rompe o hímen do inconsolável tempo perdido.
Reaprende Francesco a sede do instante, a vida
rápida na memória dos olhos de Laura.
In “Nocturnidade”
Campo das Letras – 1999
Orlando Neves
(1935 -2005)