CÁ TE ESPERO...

Recordando... Orlando Neves... Poeta Contemporâneo

VEM E DIZ


 


Vem e diz. Que enorme casa resplandece


de bronze, que vento destrói as belas


lavouras, quem entende a fala das perdizes,


ungidas da luz matinal.


 


Vem e diz. Por um tempo de nada, a juventude


banha a nudez do rosto e nos deleita


dos amáveis dons da idade. Em minha casa amada,


sou uma tâmara redonda e madura.


 


Vem e diz. Quem nos ensina o caminho


da cidade, que pão amassado é arma excelente,


pendular e lenta, da agonia, que distância


nos isola dos homens de fala dotados.


 


Vem e diz. Não invejo os deuses nem as suas


acções, não mudo o pranto em louvor, nem


das brisas oceânicas provém o passo


da fortuna, areia fugida à contagem.


 


Vem e diz. Que sombra de sonho é o


homem, o que de muitos veio para ser único,


o que, ornado de ouro e alado, em dez


medidas de água sucumbe, em bolor se devora.


 


Vem e diz. Bebamos


 


 


In "Lamentação em Cáucaso"


Património XXI – 1991


 


Orlando Neves


1935 – 2005


 

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