CÁ TE ESPERO...

Recordando... Paulo Teixeira

AUTO-DE-FÉ


 


Quando o amor é como os papéis velhos


e anseia por mais arte que a do poema


o coração é forno onde ardem as palavras.


 


Nesse dia elas foram, amarradas com barbante,


viúvas precipitando-se dentro da pira.


Fiquei a vê-las abrirem-se como pétalas


para logo definharem a meus olhos


numa florescência não cumprida.


O seu frémito era ainda uma ânsia minha.


 


Remexi as cinzas, agitei o ar com as mãos.


Vi como um poema se mostra servil ante o fogo.


E pensei: ardessem também os meus dedos!


Para que o poema não deixe crias ao morrer


e não mais confira o direito à vida


do que nele vai escrito.


 


Porque o amor é a arte que fica além do poema,


no dia em que não escrever mais poemas


sei que o amor resgatará o meu corpo da chama.


 


In "Autobiografia Cautelar"


Gótica - 2001


 


Paulo Teixeira


(N.1962)

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