CÁ TE ESPERO...

Recordando... Pedro da Silveira

METAFÍSICA


 


Foi em Taipé.


Se bem me lembro, a 3 de Outubro.


Nas árvores o sol crescia devagar.


 


Entrámos num dos templos da cidade


e era quando os crentes fazem as suas oferendas.


Uma monja revestida de amarelo oficiava


e o fumo dos pivetes enlaçava-se


na música dos sinos e dos címbalos.


 


Nunca vi em parte nenhuma uma monja tão bela


e os seus gestos oficiando eram belos como ela.


Na música transportava-me não ao céu


mas aos braços da monja erguidos


maduros e redondos para o amor.


 


Sobre um estrado recebendo as bênçãos


vi comidas que só os chinas sabem oferecer a deuses


e que pelos deuses abençoadas eles retomam, e comem.


Mas sobretudo vi um cacho de bananas


cor de ouro, enormes, sardentas.


 


Quando saí não pude deixar de comprar bananas,


que logo amorosamente devorei.


E por isso ainda hoje penso na monja de amarelo,


nos gestos que fazia oficiando.


 


Nunca mais voltarei a Taipé


nem comerei bananas como aquelas.


Que a vida é assim, amigos:


recordar, por exemplo, a beleza de uma monja


e um cacho de bananas


e contentarmo-nos depois com o que temos


onde não temos nada disso.


 


In “Corografias” - 1985


Perspectivas & Realidades


 


Pedro da Silveira


(1922-2003)

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