CÁ TE ESPERO...

Recordando... Pedro da Silveira

VAZIO


 


O dia começou cheio de sol,


agora pegou chuva.


Por trás da sua vidraça,


indiferente, um gato


todo estendido dorme.


Da marcenaria lá em baixo


sobe o som intermitente


de um martelo pregando


um móvel qualquer que o mestre


quer talvez aprontar hoje,


 


Largo o livro que lia


e de novo olho para a rua


onde não passa ninguém.


Por cima de um muro de quintal


as folhas de uma amoreira


tremem devagar, gotejando,


O martelo já se calou.


O gato começou a espreguiçar-se.


 


Agora é uma frágil música


talvez de flauta de cana,


como cuada pela chuva


que já está estiando.


 


Ergo-me da cadeira onde lia


enfio o casaco e caminho


direito à porta da rua.


Até à Praça, ou no café,


hei-de encontrar algum amigo


para a conversa desta tarde.


 


In “Fui ao Mar buscar Laranjas - Poesia reunida”


Editor Instituto Açoriano de Cultura


 


Pedro da Silveira
(1922-2003)

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