CÁ TE ESPERO...

Recordando... Pedro Homem de Mello... Poeta do Séc. XX

MILAGRE


 


O meu futuro fora aquele instante!


(Leve, subtil, a flor buliu na haste...)


O meu futuro fora aquele instante.


Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!


 


Com musgo, o pinheiral esteve à espera...


E a flor (tão perto e azul) buliu na haste!


O Inverno do arrabalde? - Primavera!


Com musgo, o pinheiral esteve à espera...


Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!


 


Então, o olhar da noite fez-se baço;


E a flor, fria talvez, buliu na haste...


- Desertos, lagos, pântanos, cansaço...


O olhar da noite vítrea fez-se baço!


Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!


 


Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Vergonha?


Estrume sob a flor da minha haste...


Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Verginha?


Poesia indomável e medonha!


Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!


 


Sangrou demais o meu pecado. Basta!


Buliu demais a flor, dobrando a haste...


Sangrou demais o meu pecado. Basta!


Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!


 


O vento varreu toda a noite, ardida


E, com o vento, a flor buliu na haste...


Veio chuva depois. Destino, vida...


E o vento varreu toda a noite ardida!


Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!


 


Os homens não me viram e passaram.


E a flor, distante já, buliu na haste...


Os homens não me viram e passaram...


Ó mãos cegas que, um dia, me salvaram!


Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!


 


 


In "Bodas Vermelhas"


Porto Editora – 3.ª edição – 1979


 


Pedro Homem de Mello


1904 – 1984


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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