CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas Contemporâneos... Matilde Rosa Araújo

BALADA DAS VINTE MENINAS


 


Vinte meninas, não mais,

Eu via ali no beiral:

Tinham cabecinha preta

E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,

Eu via naquele muro:

Tinham cabecinha preta,

Vestidinho azul-escuro.

As minhas vinte meninas,

Capinhas dizendo adeus,

Chegaram na Primavera

E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas

Dormiam quentes num ninho

Feito de amor e de terra,

Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas

Para o almoço e o jantar

Tinham coisas pequeninas,

Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera

Suas horas pequeninas:

E houve um milagre nos ninhos.

Pois foram mães, as meninas!




Eram ovos redondinhos

Que apetecia beijar:

Ovos que continham vidas

E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas

Que a luz do Sol acalenta.

São muitas mais! muitas mais!

Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas

Eu via ali no beiral:

Tinham cabecinha preta

E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,

Capinhas dizendo adeus,

Em certo dia de Outono

Perderam-se pelos céus.


 


In "Verso Aqui Verso Acolá" (organização de Natércia Rocha)


 


Matilde Rosa Araújo


N. 1921


 

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