CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... António Feliciano Castilho

OS TREZE ANOS


     (Cantilena)


 


Já tenho treze anos,


que os fiz por Janeiro:


madrinha, casai-me


com Pedro Gaiteiro.


 


Já sou mulherzinha;


já trago sombreiro,


já bailo ao Domingo


com as mais no terreiro.


 


Já não sou Anita,


como era primeiro;


sou a Senhora Ana,


que mora no outeiro.


 


Nos serões já canto,


nas feiras já feiro,


já não me dá beijos


qualquer passageiro.


 


Quando levo as patas,


e as deito ao ribeiro,


olho tudo à roda,


de cima do outeiro.


 


E só se não vejo


ninguém pelo arneiro,


me banho co'as patas


Ao pé do salgueiro.


 


Miro-me nas águas,


rostinho trigueiro,


que mata de amores


a muito vaqueiro.


 


Miro-me, olhos pretos


e um riso fagueiro,


que diz a cantiga


que são cativeiro.


 


Em tudo, madrinha,


já por derradeiro


me vejo mui outra


da que era primeiro.


 


O meu gibão largo


de arminho e cordeiro,


já o dei à neta


do Brás cabaneiro,


 


dizendo-lhe: "Toma


gibão domingueiro,


de ilhoses de prata,


de arminho e cordeiro.


 


"A mim já me aperta,


e a ti te é laceiro;


tu brincas co'as outras


e eu danço em terreiro."


 


Já sou mulherzinha;


já trago sombreiro,


já tenho treze anos,


que os fiz por Janeiro.


 


Já não sou Anita,


sou a Ana do outeiro;


madrinha, casai-me


com Pedro Gaiteiro.


 


Não quero o sargento,


que é muito guerreiro,


de barbas mui feras


e olhar sobranceiro.


 


O mineiro é velho;


não quero o mineiro:


Mais valem treze anos


que todo o dinheiro.


 


Tão-pouco me agrado


do pobre moleiro,


que vive na azenha


como um prisioneiro.


 


Marido pretendo


de humor galhofeiro,


que viva por festas,


que brilhe em terreiro;


 


Que em ele assomando


co'o tamborileiro,


logo se alvorote


o lugar inteiro.


 


Que todos acorram


por vê-lo primeiro,


e todas perguntem


se ainda é solteiro.


 


E eu sempre com ele,


romeira e romeiro,


vivendo de bodas,


bailando ao pandeiro.


 


Ai, vida de gostos!


ai, céu verdadeiro!


ai, Páscoa florida,


que dura ano inteiro!


 


Da parte, madrinha,


de Deus vos requeiro:


Casai-me hoje mesmo


com Pedro Gaiteiro.


 


 


In "Líricas Portuguesas – Portugália Editora"


 


António Feliciano de Castilho


1800 – 1875


 


 


 

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