CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... António Nobre

MEMÓRIA


 


Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,

Em terras de Borba, com torres e pontes.

Português antigo, do tempo da guerra,

Levou-o o Destino pra longe da terra.

Passaram os anos, a Borba voltou,

Que linda menina que, um dia, encontrou!

Que lindas fidalgas e que olhos castanhos!

E, um dia, na Igreja correram os banhos.

Mais tarde, debaixo dum signo mofino,

Pela lua nova, nasceu um menino.

Ó mães dos poetas! sorrindo em seu quarto,

Que são virgens antes e depois do parto!

Num berço de prata, dormia deitado,

Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado

(E abria o menino seus olhos tão doces):

«Serás um Príncipe! mas antes... não fosses.»

Sucede, no entanto, que o Outono veio

E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.

Calçou as sandálias, toucou-se de flores,

Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:

«Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,

António e já volto...» E não voltou ainda!

Vai o esposo, vendo que ela não voltava,

Vai lá ter com ela, por lá se quedava.

Ó homem egrégio! de estirpe divina,

De alma de bronze e coração de menina!

Em vão corri mundos, não vos encontrei

Por vales que fora, por eles voltei.

E assim se criou um anjo, o Diabo, a lua;

Ai corre o seu fado! a culpa não é tua!

Sempre é agradável ter um filho Virgílio,

Ouvi estes carmes que eu compus no exílio,

Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!

Pelo cair das folhas, o melhor dos meses,

Mas, tende cautela, não vos faça mal...

Que é o livro mais triste que há em Portugal!


 


 


In "SÓ"


Estante Editora


 


António Nobre


1867 – 1900


 

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