CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas do Séc. XIX... Alexandre Herculano

 


E EU TE ENCONTREI, NUM ALCANTIL AGRESTE


 


 


E eu te encontrei, num alcantil agreste,


Meia quebrada, ó cruz. Sozinha estavas


Ao pôr do Sol, e ao elevar-se a Lua


Detrás do calvo cerro. A soledade


Não te pôde valer contra a mão ímpia,


Que te feriu sem dó. As linhas puras


De teu perfil, falhadas, tortuosas,


Ó mutilada cruz, falam de um crime


Sacrílego, brutal e ao ímpio inútil!


A tua sombra estampa-se no solo,


Como a sombra de antigo monumento,


Que o tempo quase derrocou, truncada.


No pedestal musgoso, em que te ergueram


Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,


Do presbitério rústico mandava


O sino os simples sons pelas quebradas


Da cordilheira, anunciando o instante


Da ave-maria; da oração singela,


Mas solene, mas santa, em que a voz do homem


Se mistura nos cânticos saudosos,


Que a natureza envia ao Céu no extremo


Raio de sol, pasmado fugitivo


Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste


Liberdade e progresso, e que te paga


Com a injúria e o desprezo, e que te inveja


Até, na solidão, o esquecimento!


 


 



Alexandre Herculano


1810 – 1877

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