CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas do Séc. XIX... António Nobre

AO CAIR DAS FOLHAS


 


 


Pudessem suas mãos cobrir meu rosto,


Fechar-me os olhos e compor-me o leito,


Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,


Eu me for viajar para o Sol-posto.


 


De modo que me faça bom encosto,


O travesseiro comporá com jeito,


E eu tão feliz! por não estar afeito,


Hei-de sorrir, Senhor! Quase com gosto.


 


Até com gosto, sim! Que faz quem vive


Órfão de mimos, viúvo de esperanças,


Solteiro de venturas, que não tive?


 


Assim, irei dormir com as crianças


Quase como elas, quase sem pecados...


E acabarão enfim os meus cuidados.


 


 


Clavadel, Outubro, 1895


 


(Este poema é dedicado a sua irmã Maria da Glória)


António Nobre


1867 – 1900

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