FERVET AMOR
Dá para a cerca a estreita e humilde cela
dessa que os seus abandonou, trocando
o calor da família ameno e brando
pelo claustro que o sangue esfria e gela.
Nos florões manuelinos da janela
papeiam aves o seu ninho armando,
vêem-se ao longe os trigos ondulando...
Maio sorri na Pradaria bela.
Zumbe o insecto na flor do rosmaninho:
nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
zunem besouros e palpita o ninho.
E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
do seu catre virgíneo sobre o linho
um par de borboletas amoroso.
Gonçalves Crespo
1846 – 1883