CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas do Séc. XIX/XX... Cesário Verde

LÚBRICA


 


Mandaste-me dizer,


no teu bilhete ardente,


que hás-de por mim morrer,


morrer muito contente.


 


Lançaste no papel


as mais lascivas frases;


a carta era um painel


de cenas de rapazes!


 


Ó cálida mulher,


teus dedos delicados


traçaram do prazer


os quadros depravados!


 


Contudo, um teu olhar


é muito mais fogoso,


que a febre epistolar


do teu bilhete ansioso:


 


Do teu rostinho oval


os olhos tão nefandos


traduzem menos mal


os vícios execrandos.


 


Teus olhos sensuais,


libidinosa Marta,


teus olhos dizem mais


que a tua própria carta.


 


As grandes comoções


tu, neles, sempre espelhas;


são lúbricas paixões


as vívidas centelhas...


 


Teus olhos imorais,


mulher, que me dissecas,


teus olhos dizem mais,


que muitas bibliotecas!


 


 


In "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica"


Selecção, prefácio e notas de Natália Correia


5ª Edição – Outubro de 2008


Antígona/Frenesi


 


Cesário Verde


1855 – 1886


 


 


 

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