CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Álvaro Feijó

 


OS DOIS SONETOS DE AMOR
                              DA HORA TRISTE


 


 


Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro 
do que tu – não deixes fechar-me os olhos,  
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos 
e ver-te-ás de corpo inteiro 

como quando sorrias no meu colo.  
E, ao veres que tenho toda a tua imagem 
dentro de mim, se então tiveres coragem,  
fecha-me os olhos com um beijo.  


Eu, Marco Pólo,  
farei a nebulosa travessia,  
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento.


 


Abarca nele o mar inteiro, o porto, a ria... 
E, se me vires chegar ao cais dos céus,  
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus. 


II

Não um adeus distante 
ou um adeus de quem não torna cá 
nem espera tornar. Um adeus de até já,  
como a alguém que se espera a cada instante.  

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar 
de novo para ti, no mesmo barco 
sem remos e sem velas, pelo charco 
azul, do céu, cansado de lá estar.  

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação 
E não quero que chores para fora,  
Amor, que tu bem sabes que quem chora 

assim, mente. E se quiseres partir e o coração 
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino 
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?

Álvaro Feijó


1916 – 1941


 

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