CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Herberto Hélder

 


FONTE – I


 


Ela é a fonte. Eu posso saber que é


a grande fonte


em que todos pensaram. Quando no campo


se procurava o trevo, ou em silêncio


se esperava a noite,


ou se ouvia algures na paz da terra


o urdir do tempo – 


cada um pensava na fonte. Era um manar


secreto e pacífico.


Uma coisa milagrosa que acontecia


ocultamente.


 


Ninguém falava dela, porque


era imensa. Mas todos a sabiam


como a teta. Como o odre.


Algo sorria dentro de nós.


 


Minhas irmãs faziam-se mulheres


suavemente. Meu pai lia.


Sorria dentro de mim uma aceitação


do trevo, uma descoberta muito casta.


Era a fonte.


 


Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.


A lua formava-se


com uma ponta subtil de ferocidade,


e a maçã tomava um princípio


de esplendor.


 


Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento


perdeu-se e renasceu.


Hoje sei permanentemente que ela


é a fonte.


 


 


Herberto Hélder


N. 1930


 

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