CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas naturais do Porto (Portugal)... António de Sousa

CARTA ABERTA


 


Diante de ti, que tens fome


ou tremes de cansaço,


perdoa, irmão,


que eu tenha de sofrer


um drama que parece de palavras!


 


Semeio versos,


tu moirejas nas cavas,


regando a terra com o suor do rosto


e requeimas a carne à boca das fornalhas


e gastas a paciência,


vivendo ao ritmo inumano das máquinas


(eu, é da alma que suo...)


 


Não é vida este sonho a que me espelho?


Não me dou como tu?


Irmão, perdoa!


Não fui eu quem talhou o meu destino


e a sede de me ser também é inferno!


 


Irmão, perdoa!


Não feches o teu punho a esta mão sem calos...


Outros, mas também tenho os meus trabalhos:


é com o cerne dos meus nervos


que acendo este luzeiro do meu canto.


 


Se me não vês assim,


se te pareço, ao rumo dos teus passos,


o passo inútil duma lua inquieta


num céu fechado,


ou apenas um mocho (agoirento e romântico),


não me fuzile a tua voz de pragas!


 


Não me chames Poeta


como quem cospe um exorcismo!


Sou teu longínquo irmão,


irmão!


Como tu deserdado


e à espera do mesmo:


sete palmos de terra e de silêncio...


 


 


In "Terra ao Mar" – Editorial Inquérito, 1954


 


António de Sousa


1898 – 1981


 

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