CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas naturais do Porto (Portugal)... Augusto Gil

TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS


 


Ó Desgraça! Vai-te embora,

Que esta linda criancinha

Andou no meu ventre e agora

Trago-a nos braços. É minha!…

Do berço, segue-me os passos;

Onde eu vou, seus olhos vão…

E quando a aperto nos braços

– Abraço o meu coração.

Quando o seu choro receio,

Embalo-a, faço que aceite

A alegria do meu seio

Na brancura do meu leite…

E quando assim não descansa,

Que tristezas me consomem!

– Mas antes chore em criança

Que depois, quando for homem…

Se ao dá-lo ao mundo sofri

Tormentos, ânsias mortais,

Desgraça, vai-te de aqui,

O que pretendes tu mais!?

Bate as asas, mas ao voares

Não me apagues esta estrela.

Se alguém de aqui precisares,

– Aqui me tens, em vez dela.

Tocam às ave-marias.

Foi-se o sol. Não vem a lua.

Luzinha que me alumias,

Que sorte será a tua?…

Riquezas tenhas tão grandes,

E tal bondade também,

Que ao redor donde tu andes

Não fique pobre ninguém.

Que a todos chegue a ventura:

Toda a boca tenha pão,

Toda a nudez cobertura,

Toda a dor, consolação…

Mas se o oiro é mau caminho,

– Antes tu venhas a ser

O pobre mais pobrezinho

De quantos pobres houver.




Iremos por esses montes

Altos e azuis como os céus…

Que onde há frutos e onde há fontes,

– Está a mesa de Deus!



E, quando a neve cair

E as seivas adormecerem,

Iremos então pedir…


(Aceitar o que nos derem!)

Andaremos à mercê

Dos génios bons e dos falsos,

Léguas e léguas a pé,

Rotinhos, magros, descalços…

E onde houver urzes e tojos,

Pedras que rasgam a pele,

Porei o corpo de rojos


– Passarás por cima dele!

Dorme, dorme, meu menino,

Foi-se o sol. Nasceu a lua.

Qual será o teu destino?

Que sorte será a tua?…

Se um crime tens de fazer,

Antes fique vago um trono,

Antes um palácio a arder,

Do que uma enxada sem dono…

Se, porém, no teu destino,

Há tão cruentos sinais,

Dorme, dorme, meu menino,

– Não tornes a acordar mais!…


 


 


In "Luar de Janeiro"


Colecção – Autores Portugueses de Ontem – 1989


Estante Editora


 


Augusto Gil


1873 – 1929


 

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